JORNAL DO DURO - 22/12/2009

 

 

 

 

Em ambiente de Academia e no mesmo dia será feito o lançamento do livro de Abílio Aires Wolney Neto Um Homem Além do Seu Tempo, ou seja, também será no dia 27 deste mês de dezembro, às 19h30min., no salão do Colégio João d'Abreu. No mesmo evento será lançado o livro Meus Versos e Canções, de tia Irany Wolney Aires. Os convites, endereçados pela Academia Dianopolina de Letras – ADL estão em anexos virtuais. O prefácio do livro de Abílio ficou a cargo de José Alencar Costa Aires. Diz ele:

“TRABALHO sincero, brotado do leito de literatura simples, jungida de carinho e luz. Não é a primeira obra de Abílio não será a última. O seu trabalho, de incansável pesquisa, é duradouro pelo alcance do seu objetivo, pela escolha de seu fundamento, pelo mérito, pela serventia em trazer a lume, louros de nossa História. Dianópolis se enriquece com isso. Dianópolis é vaidosa. Ela agradece enaltecer seus valores ao brilho de oloroso trabalho, quando recria com singeleza e sensibilidade, décadas áureas de nossa querida Cidade, ao tempo em que lá residia um dos grandes luminares de nosso tempo, o Pe. Magalhães. Seu trabalho é seco. Justo. De aprofundada felicidade. Abílio nos premia com esta obra valiosíssima, de cunho histórico, obedecendo o rigorismo da pesquisa, como já disse, para nos encaminhar, através de literatura leve e gostosa, às antessalas da vida deste homem notável e precioso. Dianópolis, eu sei, agradece, em nome de seus filhos, o seu trabalho de alta lavratura, a sua labuta em prol de nossa velha e amada DIANÓPOLIS, para que ela caminhe na trilha daquele que a quis diferente, luminosa e para o qual você cunhou essa obra.

O enredo do livro cuida da vida e obra do Mons. João Magalhães Cavalcante ( O Pe. Magalhães), desde a sua formação seminarista, passando por Porto Nacional, Campos Belos, Dianópolis e atualmente em Peixe-TO. O seu perfil de professor, primeiro Direitor do Colégio João d'Abreu e a sua visão futurista, quando construiu às expensas o Coreto de Dianópolis, trouxe a primeira amplificadora de som, os festivais e o serviço de auto-falantes “Maranata”. O Cinema em tela panorâmica, o primeiro aparelho de rádio, a construção do Juvenato D. Alano (internato). O livro registra um importante evento, que foi a presença do ex-Presidente Juscelino Kubtschek em Dianópolis, no ano de 1961, cujo discurso de recepção foi feito pelo Pe. Magalhães. No mesmo ano, Juscelino seria Paraninfo da turma de formandos do Colégio João d'Abreu.

 

O Des. Liberato Póvoa fecha o meu livro, falando sobre o protagonista Mons. Magalhães, quando chegou a Dianópolis:

“Jovem, pouco mais de vinte anos, entusiasmado, intimorato, visto de muitos anos na frente: era o Padre Magalhães, hoje Monsenhor. Recebemos um pastor de almas, que, por uma jogada do destino, veio a ser uma referência na formação de várias gerações de Dianópolis, Porto Nacional, Natividade, Taguatinga, Campos Belos, Conceição, Taipas e extrapolava as fronteiras estaduais, recebendo estudantes de Barreiras (Bahia), Belo Horizonte e Araxá (Minas Gerais) e até do Rio de Janeiro, pois a fama do ensino imposto pelo jovem e diligente padre, mercê de uma formação mais do que sólida, atraiu gente dos mais longínquos rincões.

E com o mesmo entusiasmo com que recebeu os ensinamentos de Grego, Hebraico, Latim e Teologia, tentou abrir nossas cabeças xucras para jogar lá dentro coisas que não entendíamos e que soavam como do outro mundo.

Duro, disciplinador, inimicíssimo de “cola”, padre Magalhães bebera no Seminário do Caraça , em Belo Horizonte, ensinamentos que lhe transmitiram os maiores luminares da época, trazendo-nos a filosofia do “Centro Dom Vital”, de Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, e outros expoentes, como os sempre lembrados padres Orlandos: um Machado; outro, Vilela. O certo é que, apesar de inflexível, enfiou nos nossos moucos ouvidos rudimentos do hebraico, do grego e outras gatimônias linguísticas, assustando-nos quando rabiscava na lousa caracteres cirílicos, parecendo sapinhos-de-rabo, que estavam muito além das fronteiras do nosso conhecer.

Peguei aquele jovem padre como professor de Português, Literatura, Francês e Latim: saído, naqueles diinhas, recém-ordenado, lá de Belo Horizonte para Dianópolis, já chegou botando a gente para cuspir marimbondo: ensinou-nos de tudo, falou de Shakespeare e Camões, de Rostand e Claudel, de Maquiavel e Renan, de Dante e Petrarca, de Boileau e Montesquieu e Literatura Universal: revirou o latim pelo avesso com as declinações e os verbos, as raízes e todas aquelas esquisitices (pelo menos para nós na época ) subitamente abolidas pela nova lei do ensino. Foi sacar o Latim das escolas, e o ensino do vernáculo faliu.

E não ficou só nisso: ele botou na cabeça que nós tínhamos de saber grego e outras caraminholas, que ele desenhava no quadro negro, parecendo – como disse – cobrinhas e sapinhos-de-rabo. A justificativa era a de que ao sairmos do Ginásio para enfrentar outros centros não podíamos passar vergonha. E a idéia do velho e saudoso mestre frutificou; não houve, na época, um só aluno dele que fosse reprovado em nada na cidade grande, fosse em concurso, fosse em exames de seleção. E mais: os primeiros lugares, quando algum concorria, já tinha cadeira cativa.

Como professor polivalente ou como diretor do Ginásio, era respeitado, e ai daquele que ousasse negar o corpo diante de uma determinação sua. Professor de Português, Francês e Latim extrapolava suas cadeiras, levando-nos a um passeio imaginário em todos os campos do conhecimento. E o esforço do velho mestre, que víamos com asco e até antipatia, deitou raízes sólidas num Carlos Alberto Wolney, que escondia atrás da imensa modéstia um poço de capacidade, continuando a sua obra no sacerdócio de transmitir os ensinamentos a outras gerações.

A muque, se preciso o velho mestre obrigava-nos a aprender, desde a elementar primeira declinação até as raízes de verbos, que para nós soavam como excrescência linguística, sem falar numa universalidade de conhecimentos da literatura mundial, pois ainda no Ginásio conhecemos Emmanual Kant, Erasmo de Roterdam, Camões, Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Shelley, Paul Claudel, Paul Valery, Mallarmé e todos os expoentes da literatura mundial. Ali naquele interiorzão, que era ainda mais inóspito, tivemos contato com as obras de Torquato Tasso, Ludovico Ariosto, Giovanni Boccaccio, Nicolau Maquiavel, e soubemos o que eram Mahabharata e Ramaiana e quem havia sido Osmar Khayan. Botou-nos para decorar “Lê Bois Amicale”, de Valléry, “Lê Lae”, de Lamartine”; “Il est midi”, de Claudel, e outras páginas que ainda hoje são quase inacessíveis naquele interiorzão.

E quando a nova metodologia de ensino resolveu abolir o latim, foi como uma sombra pairando na sua cabeça: ele, que dizia missa em latim, dava aulas de latim e só não conversava em latim por falta de parceiro, sentiu um grande vazio.

Achamos – como ele – injustificável, inoportuna, essa proscrição. Não por ser fácil ou gostoso de se estudar, mas por nos colocar nas mãos a razão de ser da Flor do Lácio, além de desenvolver o raciocínio na dança das declinações”.

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